CAPITULO V – VOCÊ ENTENDEU POR QUE
NÃO VÊ A LUZ DO DIA?
A vontade
dizer “oi meu amor, você voltou” era grande, mas ele estava bravo comigo, seria
muita sacanagem, mas a presença dele me alegrou, acabou, vou finalmente
respirar direito, sentir menos dor, vou usar camisetas apertadas e não vai
ficar um buraco marcado nela e nem vou mais sujar as roupas de sangue só por
estar com elas.
Eu sorri e perguntei o que ele carregava numa sacola muito pequena que ele
carregava. Ele foi direto, porém sem esconder seu cansaço disse:
- Amigo... Precisamos conversar.
A gente sentou no sofá, liguei a tv, passava o jornal da madrugada na Band News,
não sabia o que dizer, até que perguntei:
- Afinal, por que você quis sair de
novo? E por que você ta assim, ta machucado?
Ele, com aqueles olhos pequenos me assustava, eram olhos não envoltos de pele
ou de pelos dentro de um globo ocular natural e anatômico, eram olhos meio
saltados que me assustavam por não parecer naturais, eles estavam baixos, até
que olharam diretamente pra mim, pareciam olhos de peixes vivos colados com
Super Bonder em um coração dilacerado, olhos loucos, que da boca que era um
simples buraco sem lábios que era fácil ver alguns dentes, que nem busquei
entender o como eles nasceram num musculo sem ossos e que teoricamente nunca
precisaria de dentes para sobreviver:
- De novo, eu fui pros confins do mundo pra corrigir suas cagadas e a vitima
dela quase me matou com um martelo de amaciar carne.
Não sabia o que dizer, houve um silencio mortal, mas curto, logo perguntei:
- Por que você faz isso? Isso não faz
mal pra você? Eu sempre fico muito mais cansado quando você não esta. A gente
precisa um do outro, eu acredito nisso. Se eu te fiz algo me desculpa eu não
percebi.
- A culpa não é minha, se toca disso. Serio, agora e eu entendo a dor da
isabela, e eu to muito puto com você.
A cada momento que eu falava eu me sentia menor, oprimido. Minha pequena sala
ficava MENOR, MENOR, E CADA VEZ menor, mínimo. Eu pensava se sempre que minha
mãe dizia que eu tinha coração grande, era uma situação dessa que ela imagina
que eu iria passar, crescer e sumir, A tristeza naquele momento, eu não sentia,
nem a alegria, nem a raiva que meu coração sentia naquele momento, a raiva de
mim mas não a raiva de mim mesmo.
Uma entidade independente, que cresceu e amadureceu diferente de mim, que não
aprende, que não cresceu, e esta amadurecendo e os problemas psicológicos são
segurança para os que não entendem o mundo. Depressivos são poucos comparados
aos que são melancólicos e infelizes mas todos tem uma chance, ou arrumam a
casa, ou jogam tudo debaixo do tapete e infelizmente demorei para entender
isso, só fui entender no momento que meu coração se deitou sobre a minha mão e
disse:
- Você me culpa pela merda que você é, você não é único, você tem seu emprego,
casa que no fundo você escolheu passar por isso, claro que as opções são
poucas, mas de todas as decisões que mudaram sua vida você deve lembrar de no
máximo duas.
Sabia que os sentimentos são criados na sua cabeça? e que os japoneses do período
feudal sentiam o amor na barriga?
- Mas... Mas...
Eu não sabia o que responder, mas queria responder, então eu perguntei:
- Por que você saiu pela primeira vez? Quando você voltou eu nem percebi que tinha
chegado, nunca tinha dito nada.
Ele de maneira fria respondeu.
- Eu só queria viver, ter sentimentos, eu viajei na garupa de caminhões,
conversei com todos os bêbados e loucos de BR que eu achei pelo caminho. Eu fui
gentil, engoli preconceitos da humanidade e não disseminei nenhum tipo de ódio,
disse bom dia para qualquer um que me vesse, me chutaram, outros me amaram, a
maioria pobre igual a você, mas nem todos eram pobres financeiramente, mas sim
de espirito. Não suportei ver você se vender a tanta coisa inútil e isso te
fazer mau. Eu tive que sair.
Conversa veio e conversa foi. Eu tinha a convicção do lixo que eu era e como
deveria me concertar. No final de tudo, viramos amigos pois vivemos juntos a
vida toda, lembrando do meu primeiro beijo e do momento que eu ouvi “No
surprises” do Radiohead, tocando na rádio, entre as paradas de sucesso e do dia
do meu casamento, o dia mais feliz da minha vida. Ele pegou a sacolinha e
disse:
- Tira a camisa, vamos dormir.
Abri um sorriso e fiz o que ele mandou, ele me escalou, se encaixou deixado só
os braços pra fora, ele tirou um negocio meio esbranquiçado e o comeu de uma
vez, deu pra saber que era crocante pelo barulho que fez a mastigação, eu
perguntei:
- Somos realmente amigos a partir de agora?
Ele demorou pra responder devido a mastigação, e quando engoliu comecei a
sentir novamente os batimentos e o sangue correndo pelas veias, mas parecia que
algo queimava por dentro, estava doendo muito, minha garganta pareica que
começava a fechar, então ele respondeu:
- Você diz que via mudar, mas no fundo não muda, já disse isso milhares de
vezes, mas ainda é a mesma coisa, eu não acredito em você, nunca serei feliz
com você.
A dor começou a aumentar:
- O que você comeu? O que é isso!?
Meu coração respondeu:
- Um pedaço de maçã regado a Cianureto de potássio.
FIM.